Rarefato, de Frederico Barbosa, apesar de estréia, já contém
complexidades de quem conhece bem o jogo poético. Dividida em seções
que representam prismas semânticos diversos, a obra abre com um jogo
de redundâncias significantes e metáforas fantasmáticas
em que se estabelece um estado terminal e que se finda por um limite, ou
seja, pela zeração do poético (“A Consciência
do Zero”). Depois, narra-se algo obscuro, não determinado, para
que o leitor decifre o alvo do poeta (“Na Mira”). Atmosfera semântica
que envolve a metáfora vital do corpo e de situações
em volta, “dados contaminados”, “uma cilada”, “cheiro de poeira acra”
e buscas “(...) de um rastro secreto”. O que se acaba com um “desenho insano
que se acaba em cada traço”. Influxos de filmes gênero policial
noir, monologuismos beckettianos e batidas secas-ásperas de João
Cabral. O tema Beckett da identidade em cheque, o dead-end em que desembocam
todos os perseguidos da ficção e do real. Vertigens de Sá
Carneiro, tentáculos afiados de linguagem e riscos suicidas (“Cartas
a Kirilov”). Após essa abertura, urbe surge como “faísca
viva, surgem as “multifaces” do cotidiano e o simples farol de carro identificado
ao “sol”. A cidade é o habitat do poeta, onde se vive a rebeldia
existencial (Camus, Dean), o terrorismo como oposição, o
ar irrespirável e o radar poético dentro da fumaça:
“mudo inundado de / filme negro fumaça morcego no ar / antema de
rápido radar / anda / por ecos ondas e nós”.
O poeta evoca ainda imagens (“Austinights”), “uma chuva sem metáforas”,
e tematiza o tempo todo a ausência de sentido do signo poético
e de outros signos da existência em si. Evoca também envolvências
ambientais (“Aos Mesmos Sentimentos”), sensações difusas
em que intervê elementos não só visuais, mas táteis
e auditivos. O poema “Star Dust”, com repetida evocação melódica
de um jazzista cult (Lester Young) é o paradigma desse mélange
das sensações. Ressurgem, afinal, indagações
metalingüísticas (“Como Quem Lê”), ironias antipoéticas
e identificações (“Sob a Sombra de João Cabral”).
Que sejam citadas entre parênteses as antigas experiências
do poeta as a young man (“Resistência ao Ar”), riscos assumidos em
que se revelam as origens de sua formação (o estudo da Física,
a poesia concreta e os experimentalismos poéticos em geral). Mas
vê-se que o princípio da montagem e os elementos de forte
visualidade não abandonaram o poeta, hoje numa trilha diversa de
pesquisa semântica, menos unívoca e mais de interrelações
e não menos experimental em certos aspectos.
É fácil identificar a que linhagem pertence Frederico Barbosa:
a dos poetas intelectuais que não abrem mão de um universo
referencial amplo e diversificado. Referências cultas se cruzam com
outras mais acessíveis à formação média:
Camus e jazz, Beckett e “filmes negros”, João Cabral e os faróis
de automóveis. Nem tão intelectual, porém, que o poeta
se negue a à narração de sensações mais
concretas, menos filtradas por referências a Dante e Petrarca. A
trilha dele ainda pode ser muito longa e talvez nos traga, quem sabe, surpresas.
Mas o que aqui está, sem dúvida, já é um espaço
próprio muito demarcado.
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