Conflito e Pedradas *
 
Sebastião Uchoa Leite
 
        Ao estrear com Rarefato, em 1990, e continuar com Nada feito nada, em 1993, a impressão geral era a de se crer que, em breve, Frederico Barbosa se tornaria um dos mais notáveis poetas brasileiros dos tempos atuais. De fato, o jovem poeta logo teve lugar de destaque, sendo incluído na celebrada antologia brasileiro-americana Nothing the sun could not explain, organizada por nomes de destaque nos anos 80: os brasileiros Régis Bonvicino e Nelson Ascher, com a colaboração do americano Michael Palmer. Antologias, no entanto, não são  sempre suficientes para um êxito estético-literário permanente, pois a memória pública é precária. Agora, após sete anos, Frederico Barbosa lança seu terceiro livro, Contracorrente, dominando inteiramente o seu instrumento, a linguagem poética, até onde isso subsiste hoje. E, quando deveria haver uma recepção à altura do valor desse livro,  abate-se um silêncio incômodo até em São Paulo, onde vive o autor, vindo ainda na infância do Recife, onde nasceu.
        Em primeiro lugar, Contracorrente traz a marca do autor: a conquista  metódica de um espaço próprio, não só na  dita “modernidade”, pondo um pé na tradição da linguagem e o outro num estilo de ser na expressão contundente. Mas não só isso. Frederico aprofunda agora o veio da contundência, mais direta do que nunca, quase sem adornos metafóricos ou símiles.
        Ele já abre o seu livro com uma seção agressiva, dita Por Recusa, com o poema  “Poesia e porrada”, integrante de uma linhagem poética no Brasil que vem de Gregório de Matos, passa pelo Sousândrade de “O inferno de Wall Street”, de certo Luís Gama, poeta da negritude no século XIX, e, mais recentemente, de outros como Paulo Leminski, do não-complacente Sebastião Nunes e de Augusto de Campos, onipresente na linguagem de vanguarda no país, e de alguns  poucos mais. Há, portanto, uma linhagem, uma tradição do mal-dizer, que vem dos antigos satíricos latinos Catulo e Marcial, de alguns provençais, de François Villon (o da “Balade des langues envieuses” e de inúmeros trechos de Le legs e Le testament), de Gregório de Matos e, enfim, de João Cabral de Melo Neto, a quem dedica um dos textos mais fortes do livro. Pode até ser que Frederico Barbosa nem tenha lido todos os citados (mas certamente leu quase tudo, pois é, como diz Antonio Risério no posfácio, um poeta culto) e pode ser que nem a todos aprecie, mas há um inegável “ar de família” que os une. Não se trata aqui de “influências”, na percepção limitada  de certa crítica. Por exemplo, o poema de abertura “Poesia e porrada” freqüenta um universo climático semelhante aos de Paulo Leminski e Sebastião Nunes, mas com inflexão bem diversa, mais concentrada em seus ácidos, tendo-se, às vezes, como seu próprio alvo:
 
Dispenso a pose polida
e disparo petardos
 
Incertas  pedras 
chutes feridas
de pé descalço 
  
Arrisco sem meta
ou  metro estimado.
  
Eu
insulto
revolto o gesto.

         É assim, “de pé descalço”, que Frederico enfrenta um Golias não-nomeado, mas que poderíamos chamar de “sistema”. Como um Davi qualquer, com bodoques ou mesmo pedras na mão. Tudo isso com a consciência plena dos próprios limites, como no poema “Corpo e sombra”, no qual dialoga consigo mesmo:
 
 

Eu, 1999
 
        O poema tem uma continuidade, em que retroage,  em flashback, a 1979, quando, se presume, surgiram as indagações, que têm a resposta subseqüente no primeiro fragmento, em plena contradição da ordem lógica. Ainda em Por Recusa, encontram-se “I, the tempest”, o qual precede “Desexistir”, embora pareça, curiosamente, uma sutil conseqüência. Neste último, numa agressividade que parece própria a certo estilo de ser subjetivo, decide-se que há um ponto em que não se pode mais voltar, isto é, onde o suicidar-se não tem mais sentido. E o que é “I, the tempest”? Senão, vejamos. Em “Desexistir”, o poeta proclama:
          E em “I, the tempest”:
          Não parece uma inversão de termos? Isto é, que o “Viver intempestivo” preceda, do ponto de vista lógico, o  “desexistir”? Mas a lógica poética é diferente da lógica matemática, parece nos dizer o poeta.
Na parte 2 do livro, Encontros Diversos, nos textos iniciais, reina ora a reflexão sobre os tempos passado e presente – reflexões fortes, sem saudosismos românticos –, ora o presente em si, em flagrantes,que são breves iluminações de momentos epifânicos, incluindo-se aí ora o erótico fugidio de poemas como “Jeans” ou “Paulistana de verão”, ora  o irônico ou  mesmo o humorístico de  “Mallarmé falsificado” e de, no meio de tudo, um  “soneto-não-soneto”,  de surpresa, em “Sono dicionário”, em que pulsa o satírico e paródico do “poético”. É de se chamar a atenção a repetição, nos dois textos, do termo “falsificado”, como se o “falso no dicionário” do “Sono dicionário”  fosse o núcleo da reflexão. Nos dois poemas finais dessa parte, “Menina lendo” e “Memória se”, desaparece o humor ou ironia para dar lugar a uma sensação mais calorosa, mais íntima.
         Na verdade, toda a carga subjetiva da parte  2, Encontros Diversos, é vivida através de um entranhado “nós”, que se explicita nos três primeiros textos e, de certo modo, “contamina” o todo. Frederico não é, de modo algum, um raro cantor da nostalgia solitária. Seu pendor social é mais forte e atravessa todo o conjunto, mesmo enquanto conflito e pedradas. Ou  por isso mesmo. Ou, ainda, parecendo tratar de visões subjetivas, Frederico recorre a imagens coletivizadas através dos  topoi da tradição poética, como os temas da “beleza distante” e da Belle dame sans merci  no brevíssimo “Ad”.
        Na parte 3, Trocados da Sorte, esta sensação de ser coletivo atravessa tudo. Aí o tom salta inesperadamente do êxtase corpóreo para o corpo doente, que é o corpo social degradado, desagregado. Trata-se agora não só de ver, mas até de apalpar simbolicamente esse corpo mísero (denominado de “tristes trapos”, evocando explicitamente o “tristes trópicos” de Lévi-Strauss). O sabor de tudo isso é o amargor e azedume que transparece desses corpos, em  “BR-116”, evocando,  de imediato, “O que vive / incomoda de vida”,  de João Cabral, em “O cão sem plumas”. Em “Rabo de fora”, texto seguinte, como se fora uma seqüência lógica, flagra-se a inútil tentativa de fuga do tema na burguesia média, em que se coloca o poeta, “atrás de portarias e vidros fechados”, na  “TV – trincheira do lar” e na “fuga da fome” (alheia, é claro). Vêm depois as catástrofes coletivas, como as trombas de chuva de São Paulo e seu “Apocalipse / de quintal”. E, enfim, a individuação maligna de corpos, “Os ratos”, no que se vê “multiplicando-se / como rato tonto”, ou seja, o “hipócrita/ falso sonso”,  isto é, o emblema da mediocridade da burguesia. Aí Frederico Barbosa se põe ao lado de vários poetas que trataram do tema da burguesia no século XIX, a partir de Baudelaire, além de nomes emblemáticos da modernidade em língua portuguesa, tais como Almada Negreiros, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, João Cabral  e muitos outros. Insere-se, então, na forte tradição antiburguesa da poesia, arte que não produz dividendos.
Enfim, chega-se à parte 4 e final do livro, Na Passagem, onde se encontram os dois poemas cruciais do conjunto. O primeiro, “Pior do que a morte”, pela sua contundência, inigualável na poesia timorata dos nossos dias,  e o segundo,”31/12/99”, em que a fusão espaço-tempo adquire sentido especial e vem, logicamente, do parti pris da poética materialista do livro.
        Este “materialismo”, que se diria melhor  “materialidade”, refulge com brilho em “Pior do que a morte”, notável texto de média extensão,  em que se defende um João Cabral poeta da matéria tout court, sem intermediações, na tradição anti-romântica e anti-simbolista que atravessou, no Brasil, quase toda a modernidade (Bandeira, Oswald, Mário, CDA, as vanguardas  etc.), abrindo-se exceções para Jorge de Lima, Murilo Mendes  (o da primeira fase, mas, ainda assim, revel aos ritos hipócritas da burguesia), Augusto Frederico Schmidt e o primeiro Vinicius de Morais, ainda preso a pregações sub-místicas. Houve, ainda, a influência, no primeiro Murilo, do tedioso “essencialismo” de Ismael Nery, hoje esquecido, como também o influxo da carolice marianista de Alphonsus de Guimarães.
Enfim, em “Pior do que a morte”, defende-se um João Cabral que, por toda a  lição de vida e de poética, não pode ser reduzido a uma suposta conversão. Na postulação dessa imagem de um poeta fiel à sua própria des-crença, ao compor-se o perfil de um Cabral “exato, claro e enjoado”, surgem estilemas (atenção, desavisados: não é “influência” e sim homenagem) próprios do retratado:
   
        Ou até mesmo a paráfrase:
   
        Conclui-se, com veemência, o que foi, para o autor, a lição de João Cabral:
   
        Ou seja, uma homenagem que é quase glosa, como se uma “imitação da forma”,  na interpretação de João Alexandre Barbosa sobre o poeta.
        No poema final,  “31/12/99”, ressurge o fundamentalismo materialista do autor. Eis o penúltimo fragmento:
 
1
 
        Conclusão: tal como Drummond, que se declarou explicitamente  “cantor da matéria e da vida presente”, assim Frederico Barbosa é o mais enfático (e às vezes é necessária a ênfase) defensor de uma visão materialista dos nossos tempos, nomeando tranqüilamente, sem hesitações, a  “pacificação bovina” de certas prédicas, dos pastores que falam, assim como os “padres cantantes”, às multidões, a “religião “ de enormes massas histéricas, igual a outros fanatismos diversos (política, futebol, popstars etc.), enfiados no mesmo saco de hipocrisia e retórica. Há espaços onde a descrença não só é declarada, mas reiterada. Há ocasiões em que se afirmam equívocos, mesmo em pessoas  de grande nível. Assim foi o caso do grande Paul Celan repreendendo o não menos grande Bertolt Brecht por suas explicitações quase bárbaras, mas necessárias em tempos de barbárie, como os tempos de Adolf Hitler e seus comparsas. E é preciso ver que ao lado das metafísicas  da cultura ocidental, colocaram-se outros valores, inteiramente pagãos,  quais os vindos dos gregos (Aristófanes, por exemplo) até os satíricos romanos (Marcial , sobretudo) e os poetas-filósofos da matéria, como Lucrécio. Em nossos tempos, porém, as espiritualidades que empolgaram o passado, hoje “se repetem como farsa”. Porém, basta de se confundir o “poético” e o “espiritual”, dois termos submetidos a total equívoco até hoje. Aliás, o que é o poético? Tal indagação subsiste no livro notável que ora se resenha. A materialidade nele está inscrita no próprio corpo dos poemas  e seus jogos de linguagem, o que poderia até render outra resenha, menos pretensiosa, pois o livro alia o discurso crítico e metacrítico a um só tempo e, nele, a linguagem poética reflete sobre si mesma através dos seus próprios estilemas. Enfim, nele refulge a coragem e a lucidez por igual, sendo tão visceral  a primeira quanto é emocional.  E sendo tão límpida a segunda quanto é exata.



 Sebastião Uchoa Leite é poeta e ensaísta.

 
Resenha publicada na Revista Cult, número 42, Ano IV, janeiro de 2001. p.28
 
 
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