A poesia que nasce da negação e da dúvida *
 
Nelson Ascher
 
                    O poeta Frederico Barbosa está lançando seu segundo livro. Em  “Nada Feito Nada”, ele cria um conjunto de poemas que se nutrem da negação da própria poesia, como analisa o crítico Nelson Ascher.
 
              Quando o título de um livro é programático – “Viva Vaia” de Augusto de Campos, “Poesia Pois é Poesia” de Décio Pignatari, “Meia Palavra” de José Paulo Paes, “Antologia” de Sebastião Uchoa Leite – vale sempre começar por ele, ver qual é mesmo seu programa e até que ponto é cumprido no miolo do livro. A cara de “Nada Feito Nada”, segundo livro de poemas de Frederico Barbosa, exibe um quadrado e um círculo sobrepostos, com as quatro letras da palavra “nada” colocadas em cada um dos ângulos do quadrilátero, ostensivamente como pontos cardeais; o centro do círculo é  ocupado pelo “O” de “feito” de modo a surgir como o (não)-algarismo 0. Pode-se ler o título segundo uma das seguintes paráfrases: “um nada que foi feito a partir do nada”, ou seja, do pó viemos e ao pó etc.; algo, o feito, que existe de fato entre dois nadas, ou seja, antes e depois não contam, conta o durante; se se privilegiar a expressão “nada feito”, o título poderá ser lido como a recusa de qualquer compromisso. Só aqui, há outras tantas leituras possíveis. Comparando-se esse título com os já citados, uma coisa pelo menos se esclarece: ele não é programático, não como são os outros.
             Trata-se, por isso mesmo, de um título exato. Ao mesmo tempo que uma leitura privilegiável nega-se a fazer concessões, as outras tantas possíveis insistem justamente nisso, na multiplicidade de leituras. E o que Frederico Barbosa oferece entre duas capas é antes um conjunto de livros. “Nada feito Nada” divide-se em cinco partes e são pelo menos tantas as obras diferentes que o compõem, com outros tantos autores. Há, então, o vanguardista experimental de “Ocasionais”, o niilista auto-corrosivo de “Sem Nem”, o caçador modernista de “ready mades” de “A Língua deste Povo: Achados”, o principiante da seção 1978 de “Certa Biblioteca Pessoal” e o memorialista da de 1991, há finalmente um poeta com ouvido e voz de jazz de “Repertório”.
             Esses diversos poetas dialogam, discutem e debatem entre si, tentando intermitentemente fazer o leitor crer que a poesia é “nada” ou que ela é não só “feita” como, talvez, um autêntico “feito”. “Sem Nem” é a seção que mais busca se aproximar do pólo “nada”. Há um paralelo entre a atitude adotada aqui pelo poeta e a de Augusto de Campos. Ninguém mais do que este negou tão vivamente a própria possibilidade da poesia. Só que o fez – e segue fazendo – em poemas: poemas que se nutrem (e crescem) da auto-negação. A auto-negação de Augusto é um marco no longo processo de tomada crítica de consciência da poesia brasileira, e muitos poetas das gerações seguintes tiveram que discutir as questões que ele propõe antes de se lançarem a algo diferente. A negação da negação pela recuperação memorialística, primeiro, do já feito e, em seguida, do modo de fazer, culminando no fazer e no afazer de fato é a chave do livro de Frederico.
             Neste sentido “Nada Feito Nada” é uma espécie de autobiografia precoce, mas não narrativa ou descritiva e sim material. Os “feitos” biográficos que, no caso, contam – isto é, a poesia, o texto – são apresentados enquanto tais: são uma só coisa a narração e o narrador. E o final da história é também o começo de outra. Pois se há vários poetas reunidos nesse volume, nem todo mundo é Fernando Pessoa, capaz de ser habitado por várias vozes que merecem igual interesse. Algumas vozes de Frederico são distintamente mais interessantes que outras. O poeta experimental é, sem dúvida, claro e organizado, suas simetrias e cenas de polissemia explícita estão todas no lugar. Falta-lhe, porém, uma verdadeira inquietação visual, a topografia do material impresso parece mais tentar reproduzir preocupações que se originam na garganta ou no ouvido.
             Provavelmente as dúvidas postas em foco em “Sem Nem” originam-se da vontade de fazer esse tipo de poesia. Entra então em cena a memória: em primeiro lugar, a coletiva dos poetas atuais, ou seja, o modernismo. A memória literária coletiva conduz o poeta à sua própria; ele relê e comenta seus textos antigos. Mas que diferença entre os textos e o texto da re-leitura... Tudo que aqueles buscavam atingir a qualquer preço, esta consegue facilmente, sem esforço aparente, internalizando com sutileza o que anteriormente teria parecido a conquista final. Isso deságua, finalmente, na seção mais realizada e pessoal do livro, uma série de poemas sobre, ou melhor, a partir e em torno do jazz. Que fique claro: não poesia jazzística, mas poesia ao som de um jazz distante, quase inaudível, ou seja, a materialização de um resíduo sonoro, de uma memória de sons deliciosamente discordantes. O  livro fecha-se não num círculo vicioso, portanto, mas numa espiral aberta. Onde, no começo, buscava-se uma absoluta premeditação visual, ocorre, no seu final, uma descoberta do que a música pode ter de rigoroso improviso, e onde a objetividade máxima parecia ser o ideal, acaba se impondo uma subjetividade particular. A negação do princípio transforma-se na dúvida e logo na curiosidade interrogativa do final que, este sim, é o verdadeiro começo não deste livro, mas de uma voz própria e claramente audível.
 

 
Resenha publicada na seção Livro, Jornal da USP, Ano VI – no 251, 10 a 16/5/1993.].
 
 
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