Frederico Barbosa mostra o “banal da vida” *
 
Manoel Ricardo de Lima
 
Autor de “Rarefato” lança “Nada feito Nada”, um exercício de metapoesia.
 
              Basta passar os olhos em qualquer página de Rarefato (Iluminuras, 1990), que percebe-se algo de novo sob o sol. O primeiro livro de Frederico Barbosa é “universo referencial amplo”e muito mais.
 Enquanto se discutem os avanços tecnológicos, onde enterrar o livro ou onde colocar o último compact disc, o poeta surge de normalidade e, como Ademir da Guia, desmancha as defesas e explode a arquibancada dos que não estão nas contas dos dedos. Não bastasse a licença em “rigor e rasgo” de Haroldo de Campos e as “minoritárias bênçãos” de Augusto, Frederico é poeta por si.
             Experiência concreta, projeto realizado, dentro de um mesmo nada Pound e Mallarmé em faíscas de jazz em Ella, “venenos”de Verlaine e até uma mistura sã de Poe e Augusto dos Anjos: “somos um sonho podre / dos furos d’outro tempo / soro solvente espesso / tremendo fungo seco / sons de tumor e medo”. Nada feito Nada é algo de banal nessa vida vã. Um banal a tijoladas de palavras, despencando, descendo pouco a pouco em busca de lugar nessa mirabolante confusão de final de século, de língua. É metapoesia pra ser lida. Poema que faça-se ser entendido e não se dane. Poema pra tirar a idéia da cabeça que tudo é significante em linguagem metafórica, e trazer pro corpo o resto de limite poético que nos resta.
             Em “sem nem”, publicado anteriormente na revista Exu de novembro/dezembro de 1991 em página dupla e feito ícone impróprio do mundo em descida – plano – subida, sem crer em nada e desmitificando a linguagem, o silêncio, a história; Frederico distribui vínculo nenhum aos suicidas (leia-se epígrafe de Duda Machado: “estava lúcido / que era um suicídio”) e dá o tom de sua biblioteca pessoal e repertório.
             O percurso do menino que não sabia ler (leia-se Guimarães Rosa) à percepção das cores vivas, imagens ou não, na página. Abrindo a tampa do abismo que separa um “soco de Batman” de Júlio Verne/Lobato daquele tão angustiante e pesaroso (prazeiroso) Ulisses, a leitura impossível. A descoberta de que os cowboys também têm aventuras diferentes e que Joyce não era um deles. “Certa doença me isolou na biblioteca do meu pai.”
             Ensinando os lugares e dando atalhos aos perdidos nessa tarefa de “quanto mais poesia menos dizer” mais e mais, caminha pelas curvas de 1840-1841, soltando versos sem a verborragia grosseira e doente de determinados senhores de cá que deviam começar seus estudos e isolar-se entre as estantes (que ela não caiam sobre suas cabeças).
             Na última faixa do livro, inicia-se um show onde Mallarmé usa jeans e acorda pros novos acordes do mundo. E o piano de Pound, antena da raça, evoca o vento em um “claro / som / sem / brumas...”
 “All nothing at all” determina o ritmo em desfecho “leminskamikase”, assovio de bomba, a prece de amor ao nada feito nada, sem meio termo: “Nada feito nada, / no poema / não há termo meio, / meio-amor, meia-palavra.”
             Frederico Barbosa, sem nem nenhum limite, é poeta completo. Ficam aqui registradas não as bênçãos (porque estas sim seriam minoritárias), mas as saudações ao poeta, porque em tempos de telas de computador (venhamos e convenhamos) é muito bom ver um livro, livro.
 


 Manoel Ricardo de Lima é poeta e professor

 
Resenha publicada em em Fortaleza, 23 de maio de 1993 – caderno Vida & Arte, jornal O Povo.
 
 
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