Álvares de Azevedo contemporâneo
O traço mais apreciavel de Fred é que ele consegue ser uma
espécie de Álvares de Azevedo dentro de uma poética
contemporânea. O seu livro é muito bem organizado: há
um momento para o compromisso com a geometria impessoal das formas, mas
há também um momento para o compromisso com o resgate das
raízes pessoais.
No primeiro caso, ele busca se expressar mediante a desarticulação
do discurso, coordenando blocos enigmáticos de palavras iluminadas
ao lado de outras em corpo normal, numa constelação prodigiosa
de signos em movimento. Como um inseto que procura saída, ele insiste
em anunciar a impossibilidade de expressão, fazendo disso uma espécie
de assunto às avessas. Essa descrença, essencial à
poesia contemporânea, converte-se em impulso afirmativo na série
"Sem Nem", baseada em negações sobre negações.
Trata-se de uma espécie de sim através do não. Nesse
lado construtivista de seu livro, Fred elabora também montagens
preciosas, como aquelas sob inspiração de Gilberto Freire,
a partir de anúncios de jornais recifenses do século passado.
O reviramento das entranhas
Na face do comprometimento existencial, Nada Feito Nada restaura
a crença na hipótese da poesia expressiva, isto é,
aquela que acredita no valor das verdades subjetivas. De fato, quando menos
se espera, surge um maravilhoso poema de reviramento das entranhas: "Certa
Biblioteca Pessoal". Trata-se de um inspirado díptico articulado
em fragmentos independentes. Neles, Fred reencarna o espírito coloquial
das "Idéias íntimas”, de Álvares de Azevedo, produzindo
um dos grandes momentos líricos da jovem poesia brasileira. Aí,
entra um pouco de tudo: infância, praia, pai, livros bonitos, viagens,
preceitos críticos sobre literatura, modernidade, poesia, arquitetura
etc. Compaparando-se a um menino deslumbrado com a primeira viagem de avião,
o poeta procura revirginar a sensibilidade para apreender o mundo pelo
lado da maravilha e da autenticidade.
O traço forte de "Certa Biblioteca Pessoal" consiste sobretudo no
resgate da inocência sem perda da consciência. Nesse passo,
a literatura funde-se com a vida, gerando uma harmonia que ressoa em todo
o poema e lhe assegura qualidade: um corvo grasna em meio à biblioteca,
pousando na cândida face de Alice. Essa fusão de Poe com Lewis
Carroll simboliza a função essencial de uma verdadeira biblioteca:
fazer com que os dois lados da vida, inocência e consciência,
se unam para o urdimento da integridade (mas nem tanto) do indivíduo,
possível somente através da arte.
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