TECNICOLOR NO QUINTAL
PRETO E BRANCO
Frederico Barbosa - uma poesia
de rigorosos improvisos
Por Emílio Fraia
Imagino uma cabana. Uma cabana de arquitetura ideal. Pau, graveto, cimento,
pedra, cal. Uma construção de suor, mas e depois? Quanto
mais. Mais o nada se alarga. Então um chute. A cabana cai, pois
era inútil. Mas a missão fora cumprida: um passeio pelo breu
da criação.
Frederico Barbosa, poeta e professor, o Fred dos corredores anglicanos,
estará lançando seu novo livro, Contracorrente
(Ed. Iluminuras, 64 páginas, R$
15,00), no próximo sábado, dia 21, às 19 horas, na
Escola Logos.
Em Rarefato,
seu primeiro livro, Fred convida o leitor a interagir com o poema: sua
leitura minha / do seu meu poema / meus olhos buscando / nos seus / um
outro poema. A criação transfere-se então para
o leitor que passa a (re)construir os poemas do livro.
Numa madrugada insípida resolvi ler. Ler-me. Resolvi aplicar o flash
de Paulo Leminski (O barro / toma a forma / que você quiser, /
você nem sabe / estar fazendo apenas / o que o barro quer.),
e ler desordenadamente poemas dos três livros de Frederico Barbosa:
Rarefato, Nada
feito Nada e Contracorrente.
Ler e construir e criar realidades subjetivas nas realidades subjetivas
dos poemas. Deixar-se levar pelos zeros, pelos nadas, pelo niilismo de
uma contracorrente que invade o cinza de São Paulo quando chove
e quando não chove.
Cada nova leitura abre um caminho, eu acrescentaria que a cada nova
leitura abre-se um labirinto. E Fred vai questionando o valor dos poemas
e na luta contra o nada acaba apoiando o nada. Mas a expressão,
o fazer - a poesis de Antístenes - o ato criativo em si já
é tudo.
Fred improvisa, inventa, mas com rigor - o rigor herdado de João
Cabral de Mello Neto -, como num jazz, sob uma atmosfera noir de um filme
preto e branco. Não um preto e branco cheirando a mofo, mas um preto
no branco, um cinza violento e atual. No novíssimo Contracorrente,
ele vai enumerando impressões: sobre a cidade de São Paulo
e seus apocalipses de quintal, sob a cidade e seus ratos
e esgotos, nas calças jeans apertadas que vibram fibra
a fibra, nos momentos finais / iniciais de um tempo pós-tudo,
um tempo de fantasmas. 10, 9, 8, 7... Fred ainda encontra forças
para atirar bombas nas feridas dos acomodados: padres cantores, bundas,
falsos magos, os mandos e desmandos do povo. Um poeta sintonizado. ...uma
espécie de Cérbero / ninguém passa / não escapa
nada..., descontextualizando o trecho da poesia de Sebastião
Uchoa Leite, ele (o trecho) pode ser aplicado ao poeta autor de Contracorrente.
Certa vez, na
sala de aula, o Fred comentou sobre uma possível idéia para
um conto (ele não escreve contos): um indivíduo que passa
a vida inteira buscando o significado de uma palavra no dicionário
e sempre essa palavra leva à outra que leva à outra que leva...
Isso já foi feito Fred! E não foi Borges. Você fez.
Não em um dicionário, mas em seus livros. Cada trecho, cada
verso dos poemas remete à outras cores, outros vôos. A intertextualidade
faz-se presente em toda sua obra. Um Labyrintho Dellicioso.
Texto publicado no GivagOnLine
# 16 [e-zine por e-mail] em 16 de Outubro 2000