A poesia brasileira passou por um processo de implosão nas últimas
décadas. Primeiro, atestaram a ausência de ideologias, a supremacia
dos yuppies e o fim das utopias que por muito tempo impulsionaram a produção
poética de gerações contraculturais. Nos anos 80,
tirando cânones literários como João Cabral de Melo
Neto, pouco nomes se destacaram e os últimos moicanos dos anos 70
arriscaram escrever impressões em uma geléia geral que obteve
pouca visibilidade na cultura brasileira. Os autores migraram para outras
áreas como a comunicação tornando a poesia assim:
rarefeita. Contracorrente, o terceiro livro de poemas de Frederico
Barbosa, embora ele não tenha a intenção de fazê-lo
um manifesto da poesia sobrevivente, ilustra bem esse panorama literário.
Logo na orelha do livro, encontra-se um pequeno ensaio do autor sobre a
perspectiva literária nacional. O poeta aponta o concretismo como
o único momento no qual o Brasil teve uma vanguarda artística,
lança uma farpa para o que ele classifica de neo-conservadorismo
e arrisca-se em uma contracorrente. Ou melhor: uma rígida e vigorosa
forma de exercitar seu ofício sem a pseudo-verborragia da poesia
dita marginal ou o lirismo comedido do qual ele está, como Manuel
Bandeira, farto. O livro, que tem posfácio do crítico Antonio
Risério e contracapa assinada por Antonio Cândido, traz um
pedido poético urgente, explícito nas letras, desenhadas
em caixa alta, negritadas e na diagramação visualmente concretista
que parodia os cartazes futuristas do início do século XX.
O autor tem influência dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos
e leva-os para a sua poética. O que não quer dizer que essa
preferência pessoal faça parte da estética predominante
no livro. Ele utiliza recursos que estão presentes na poesia universal:
fonética, métrica, jogo lingüístico, ritmo. Elementos
que foram explorados ao extremo pelos criadores do concretismo. Sobre este,
Frederico Barbosa não poupa a sua glosa. "Esse movimento foi uma
revolução da poesia mundial do período". No entanto,
faz ressalvas. "Por ter publicado um livro pela coleção Signos
(organizada por Haroldo) e estar ligado à poesia concreta, de alguma
forma, os críticos têm uma necessidade de enquadrar tudo que
faço dentro dessa corrente". No livro, que foi produzido durante
a década de 90, fica à mostra uma literatura equivalente
àquela experimentada por escritores como Paulo Leminsky e, atualmente,
Arnaldo Antunes. A influência da poesia universal (Mallarmé,
T.S Eliot, João Cabral de Melo Neto) surge nas suas citações
de forma consciente mas independente. Uma faceta irônica, a exemplo
de Leminsky dos haicais e sua "eterna adolescência", divide a sua
presença com uma temática contemporânea (teorizada
pelos críticos literários como pessimista) ..
Frederico Barbosa é natural de Pernambuco mas mora desde os seis
anos em São Paulo. Naquela cidade, ele obtém como possível
e natural inspiração a diversidade (e caos) da metrópole
cosmopolita. O poeta já trabalhou como crítico literário
na Folha de S. Paulo e no Jornal da Tarde. Em 1993, ganhou
o Prêmio Jabuti, por Nada Feito Nada, livro de poemas.
Serviço
Contracorrente, de Frederico
Barbosa
Editora: Iluminuras
(64 páginas)
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