Resenha publicada no Jornal A UNIÃO - João Pessoa PB (26/11/2000)Logo após o lançamento de Rarefato, em 1990, publiquei no jornal uma resenha em que chamava a atenção dos leitores para a poesia do estreante Frederico Barbosa. Como uma das funções do crítico literário é apresentar ao leitor o talento de novos autores, a resenha terminava assim: “FB em Rarefato, não se satisfazendo com a busca empenhada pelos grandes poetas, inventa um modo particularíssimo de dizer o não-dito, o quase impossível. Com isso, corre o risco de transformar-se num dos mais importantes poetas de nossa década. Do ano, já o é, de longe”. E finalizava: “É hora de o leitor verificar por si mesmo”.
De fato, as matérias relativas aos melhores lançamentos do ano, feitas pelos jornais, no final do ano de 1990, destacaram o livro de Frederico Barbosa. Em 94 ele recebe o Prêmio Jabuti por Nada Feito Nada, seu segundo livro. Agora acaba de sair Contracorrente, seu terceiro título. Sua poesia está traduzida para vários idiomas e consta dos livros didáticos de segundo grau.
No entanto, não nos iludamos: sua obra é “grão imastigável, de quebrar dente”. Valem para ela estas palavras de Paul Valéry: “A literatura não tem para mim outro interesse que o exemplo ou a tentativa de dizer o que é difícil dizer”. Ou estas: “Prefiro ser lido muitas vezes por um só do que uma só vez por muitos”. Ou estas: “Minha ambição literária foi a escrita de precisão”. Ou, finalizando: “O verdadeiro pecado é escrever para o público”.
Como se deduz, a poesia de FB está anos-luz distante daquela missão catequética, de uma certa música popular, que propala que “o artista tem de ir aonde o povo está”. Isto é: deve correr atrás do público, oferecendo-lhe seu produto a preços módicos (de linguagem). Nada disso. Tanto em Rarefato, com em Nada Feito Nada, como em Contracorrente, o rigor para com a poesia começa na capa dos livros e se estende à programação visual das páginas, numa cumplicidade entre texto poético e projeto gráfico.
Carlos Fernando assina a programação gráfica (diagramação, capa, projeto e execução), dos três livros. Este exímio intérprete da música popular transfere para os livros toda a precisão e a beleza que impõe ao seu trabalho musical.
A capa de Rarefato exibe a reprodução em desenho da lápide do filho de Demétrios (séc. IV a.C.), sob fundo compacto, margeado pelo reticulado de pontos. Na laje tumular uma personagem, misto de alguém que chora com o prenúncio do pensador de Rodin. Na dureza do mármore, a expressão de dor/pensamento da personagem da lápide, choca-se com a leveza do fundo reticulado. Os dois elementos plásticos (lápide sob fundo compacto e margem reticulada) sintetizam as linhas básicas deste livro: pensamento e sentimento, densidade e rarefação, fato e forma. Linhas estas que constituem, dialeticamente, a unidade da poesia de FB. Unidade que, por sua vez, reflete e refrata, a crise. Crise individual. Crise social. Crise da linguagem. Crise de representação. Em outras palavras, a própria modernidade. Afinal, FB é um autor antenado (à la Ezra Pound) com o nosso tempo. Faz do desafio da modernidade o ofício dos seus versos.
Daí o parentesco inevitável com poetas e pensadores do pouco, do magro, do miúdo, do minimal, do seco, do denso, do duro, do pó. Do nada. Do raro. Do fato. Do fato feito nada.
O mesmo nada que ressurgirá no título do segundo livro, ao lado do feito. Nada Feito Nada. E que se apresenta como negação da mesmice instaurada - estética e politicamente neste país - no título do terceiro livro: Contracorrente.
Os títulos dos três livros apontam para o modo de fazer poesia e não para o que se dizer em poesia. A palavra rarefato, que é apenas um sinônimo para o termo usual rarefeito, introduz a ambigüidade: Rarefato: fato raro ou fato rarefeito. Como nada. Ao modo de ser nada. É o nada trazendo a linguagem, em crise, feito nada. Nada Feito Nada. Na contracorrente da ordem estabelecida o poeta aceita e faz, do poema, objeto da impossibilidade.
Impossibilidade que se corporifica na capa do segundo livro: um círculo vazando um quadrado, ou um quadrado vazando um círculo. O quadrado é dividido por 4 linhas diagonais que formam 4 ângulos retos. Em cada uma das quatro extremidades do quadrado, as linhas diagonais, associadas às do círculo, terminam formando setas, qual uma rosa-dos-ventos.
Rosa-dos-rumos poética, que aponta para nada. Sempre nada. Afinal, os pontos cardeais formam a palavra NADA.
O papel da capa, em sépia, com o desenho em tons de marrom, remete-nos à célebre representação das medidas do corpo humano, feita por da Vinci. Ali, as pernas do homem se abrem dentro dos limites do círculo e os braços, dentro dos limites do quadrado. Como estão, braços e pernas, em duas posições diferentes, sempre temos o número quatro como variante dos gestos. Quatro pernas, quatro braços. Quatro setas no desenho da capa de Nada Feito Nada. Nada: N-A-D-A: 4 letras. O mesmo princípio davinciano, com uma diferença radical: aqui a figura do homem é substituída pela língua: o título do livro repetido enésimas vezes. E o centro, um grande ZERO; quer seja, um grande nada.
A capa do terceiro livro é a sobreposição de um quadrado amarelo com linhas geométricas em preto sobre uma margem preta seguida por uma faixa amarela clara que aos poucos dissolve-se gerando uma zona de indefinição visual. O nome do autor dobra-se sobre uma das pontas do quadrado amarelo e preto e o título do livro aparece na contramão dos movimentos habituais do olho leitor. As linhas geométricas negras pulsam sobre o amarelo embaralhando a vista e expulsando o olhar pelas setas que despontam de cada uma das quatro pontas.
Percebe-se que as quatro setas do livro anterior e a diluição da capa do primeiro livro juntam-se na síntese visual do livro mais recente de FB. O nada, o fragmentado, o rarefeito, as linhas do horizonte cruzam-se num dos mais significativos índices da modernidade que é a construção da negação, da insatisfação diante das certezas estabelecidas.
É que outra vez FB toma a linguagem como a medida: somente ela fornece as verdadeiras referências do valor estético. O fato (coisa, homem) presentifica-se pela via da linguagem: memória e inovação. Sobre isto volto a falar domingo próximo. Um abraço e até lá.
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