Resenha publicada no Jornal A UNIÃO - João Pessoa PB (10/12/2000)

A materialidade da linguagem de um poeta (3)

     O apuro gráfico, incluindo aí a diagramação, a programação visual, é uma marca forte nos três livros de Frederico Barbosa. Em “Rarefato”, o corpo dos poemas, não centralizado, estende-se às margens das páginas, ora à esquerda, ora à direita. Tal recurso permite, por ex., ler o livro sem abri-lo totalmente - vale aí o sentido figurado também; relembrar que a poesia está à margem; perceber que o branco da página é mais que o branco mallarmaico - é o espaço onde se desenvolve o dialogismo poeta-poetas e poeta-leitor. Espaço para muitas vozes - no silêncio, na mudez, na contenção do branco.

     Em “Nada Feito Nada”, os poemas dançam ora à margem, ora centralizados. O branco das páginas tinge-se de verde água. Seria esse o livro verde, de “Ys estranhos” e cujas letras, lidas, nada indicavam? Seria esse o livro “que não podia”? O livro impossível para os principiantes? Certamente estamos diante de um livro que, escrito em outra linguagem (outra linguagem = linguagem poética do rigor), é “um livro verde”, um livro que pede “para ser lido”. Aquilo que era mudez no branco, torna-se música no verde. Música que se torna mais perceptível na quinta parte do livro, não acidentalmente denominada “Repertório”, e menos casualmente, dedicada ao Carlos Fernando, programador visual dos três livros e grande intérprete de canções populares.

     Em “Contracorrente” as páginas amarelas, as fontes em maiúsculas e num preto que choca, incomodam, provocam, desinstalam o leitor. Você quer ler o poema, e é expulso pelos caracteres visuais. Você não quer ler os poemas, mas é atraído pela visualidade provocativa, desconcertante, agressiva do volume. Instala-se, no leitor, uma sucessão de brigas. Briga entre o leitor e o poeta. Outra briga entre o leitor e o programador visual. Outra briga entre o leitor, seu desejo de ler e seu desejo de abandonar o livro.

     Jogar o livro. Isto mesmo: talvez a questão seja jogar o livro. Jogá-lo fora? Sim e não. Sim: difícil ler e ver este volume. Não: hipnótico livro para se ler e ver sem desgrudar, sem parar, sem querer fim. Mas talvez jogar o livro como um dado jogado por necessidade. Necessidade: diante de “Contracorrente” não há acasos: casos e caos se sucedem num labirinto de formas e faces enovelando palavras e imagens. O leitor sente o desafio da descodificação, da busca da resposta que ele sabe possível. Mais que possível: sabe pré-existente. Afinal, estamos diante de um poeta que pensa a poesia e que pensa poesia. Gratuidade? Nem pensar: isto são fricotes que o poeta esconjura com a veemência de seu saber-fazer concreto.

     O índice do livro deve ser um farol iluminador. Mas não: aqui, é uma profusão de nomes, fontes, números distorcendo o espaço do olhar cotidiano. Tudo parece confluir para o risco de não ser visto e lido. “Atiça a atenção: isca-a com o risco”, diz o verso de Cabral. Estranha atração, esta que deriva da obstinada procura e da determinação auto-imposta: há um enigma e ele precisa ser descoberto, precisa ser descodificado. Mas onde o enigma? Qual enigma? As paginações são pistas: encerram um quase-enigma: um livro não paginado?

     O olho aceitando-se num novo olhar. O olho buscando novos enquadramentos, novos sentidos, novas sensações. O olho pensando o livro desde a programação visual. De fato, em “Contracorrente”, Carlos Fernando radicaliza e faz-se poeta também. Ele não apenas lê e traduz a poesia de FB para a imagem: ele faz a poesia gritar mais ainda o que ela berra. CF dá imagem à voz aflitiva da poesia de FB.

     Agora é o fim do branco de “Rarefato”. O fim do verde de “Nada Feito Nada”. Agora é a hora do amarelo punk-chocante de “Contracorrente”: porrada de dor e prazer, de incômodo e satisfação. De amor e política. De sexo e filosofia.

     Eu queria escrever isto que vi, li e percebi desde a fila no dia do lançamento do livro: gentes desconcertadas, zil gentes rindo amarelo, outras zil gentes gostando porque já gostavam a priori, gentes gostando de cara, desvirginando-se poesia.

     Eu queria escrever esta e sobre esta conclusão inconclusa que o livro provoca. Este grito que ele lança contra o leitor. Este grito que o leitor reverbera contra o livro. Sempre contra. Contra o feijão com arroz de uma poesia comercial. Contra o papai-mamãe de uma poesia casta. Contra a burrice dos versinhos beletristas diplomaticamente acontecendo nos falsos poemas de tantos pseudo-poetinhas, cultivadores do sermo nobilis, do eruditismo viciado, vicioso, contaminado. Bem quisto. Puro quisto, isto sim.

     Frederico Barbosa escreveu um livro nocauteando de porradas o leitor. Carlos Fernando sacou o lance-soco e destrambelhou na punkice do volume, tirando o fôlego do leitor. O resultado é um livro-monolítico e multissígnico. Intersemiótico nas contradanças dos códigos e das linguagens de palavras e imagens. O projeto gráfico como um projétil lançado à queima-roupa o míssil-poema.

     Alguns, achando bárbaro o espetáculo, / prefeririam (os delicados) morrer - Drummond escreveu um dia dentro dos tempos de intensa poesia. Frederico dispara o tiro de antimisericórdia no peito da poesia terminal. Aquela que vive porque tubos e inconsciências continuam permissivos. Uma bala, como exemplificação, leitor? Lá vai. Tiro na mosca do poema “Poesia e Porrada”: DE TANTO TOMAR PORRADA / PEDRADA CUSPE TAPÃO // ENGOLIR SAPOS / COBRAS E LAGARTOS // MASCAR RANCOR // SACO ROTO DE PANCADAS // EU / INSULTO / CALEI. // E PETRIFIQUEI / RECUSA MUDA / FEITO COISA SÓ RES-/ SACA SÓ SONO SÓ RES- / SENTIMENTO.// MINHA POESIA NADA RALA / QUE DE IRA SE IRRIGAVA / SECOU / ESQUECIDA E RARA. / SÓ LIA E NADA / IMPACTAVA.// TÉDIO RECATO TÉDIO / NOS VERSOS ALHEIOS. // E EU REPETIA FALAS SAGRADAS / ESTANTE ESTÉRIL / MOTE METRALHA // NO ESFORÇO / DE RELEMBRAR / O INVERSO DO BOCEJO: “ESTOU FARTO DO LIRISMO COMEDIDO” / “FERA PARA A BELEZA DISSO” / “TE ESCREVO FEZES “ / “MAS AINDA NÃO É POESIA” // E AGORA QUE IMPERA O CHATO / O GESTO ECO / O VERSINHO PRÉ-PARNASO / O CORRETO DITO CERTO // PÉ NO GESSO / REGRADO / PÉ NO SACO // DISPENSO A POSE POLIDA / E DISPARO PETARDOS // INCERTAS PEDRAS / CHUTES FERIDAS / DE PÉ DESCALÇO // ARRISCO SEM META / OU METRO ESTIMADO. // EU / INSULTO / REVOLTO O GESTO. // SOLTO MINHA ROCHA EM VERSOS / PEDRAS-DE-RAIO / ESTRELAS CADENTES / CHUVA DE METEOROS INDIGESTOS. // PORRADAS, VINDE: VOLTEI.

     Agora, ao livro. Um dos raros de poesia contemporânea que se lê com gana.
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