Resenha publicada no Jornal A UNIÃO - João Pessoa PB (03/12/2000)

A materialidade da linguagem de um poeta (2)

     A poesia de Frederico Barbosa encampa a dificuldade, a desconstrução, o niilismo, a recusa, o nada como multi(im)possibilidades dos exercícios de fazer e de ser.

     Porém não exageremos. Nada é absoluto. Por entre tais elementos de apurado rigor estético um eu movimenta-se imerso em sentidos e sentimentos vários. Pode, por acaso, o poeta abolir a subjetividade da (e na) voz lírica? João Cabral, mestre perseguido por FB erigiu este princípio como meta. Lutou com (e contra) ele até o fim. Deixou-nos uma poesia mineral, matéria maciça perpassada por um raro e fino sentimento e muitos sentidos. FB segue a trilha do mestre, mas a cada novo livro o eu ganha mais corpo e desenvoltura. Em "Contracorrente", seu mais recente livro, o eu salta (bravo) na primeira página. Perpassa muitos poemas com sua polifonia multifacetada. E chega à última página eufemizado por um "nós", falso plural da voz que quer se lançar coletiva, diante de um fato universal - a virada do milênio.

     A imagem do círculo, tal como a do mitológico uroboru, constrói e formata os três livros de FB. O uroboru é a serpente que se estende ao longo de um rio que envolve o mundo. De tempos em tempos ela morde a própria cauda, vira-se do avesso e estremece o mundo. O uroboru simboliza as idéias de autofecundação, continuidade, eterno movimento. A poesia de FB se retroalimenta nas linhas da metalinguagem que ela mesma se lança. Por isto mesmo nenhum de seus poemas é apenas um poema sobre algo. Mas sobre algo e sobre o poema em si mesmo. Contínua e renovadamente.

     Em “Rarefato”, a linguagem percorre uma via que vai de “nenhuma voz humana”, “do amplo nada”, “tudo que escoa em silêncio em tempo ecoa” (do poema que dá título e abre o livro), até a busca da co-autoria com o leitor, em versos tais como: “Virar a chave, / como quem lê uma página / (.....) / Como quem se envolve na personagem, / lento” (“Como quem lê”). Ou: “sua leitura minha / do seu meu poema /Meus olhos buscando / nos seus / um outro poema” (“Ao leitor”)

     Poesia interativa? Se o leitor for “aquele de Baudelaire”, por que não? Além de reflexiva e auto-reflexiva, esta poesia busca a cumplicidade co-autoral do leitor. A obra se assume como um diálogo polifônico, incorporando e encorpando vozes diversas, desde que contidas no rigor mais radical da linguagem. Exatidão de uma poesia magra, crua, rara.

     “Nada Feito Nada” inicia-se com um poema malcriadamente visual - herança concreta do Barroco. O título: “Labyrintho Difficultoso”. A grafia imperial do título, com y, th e f duplicado firma, uma vez mais, o sentido da poesia para este poeta: labirinto. Labirinto, diz o Aurélio, é coisa complicada, confusa, obscura. Não se satisfazendo com esta acepção da palavra, o poeta insiste em adjetivá-la, tornando-a ainda mais borgeana: labirinto dificultoso. Último verso deste primeiro poema: “é nada é nada é nada”.

     O livro fecha-se com um poema intitulado “All or nothing at all”. (Tudo ou nada para todos), título de uma das canções clássicas do Jazz. Mesmo na música popular, como se vê, o poeta só consome “o magro dos pratos”. Últimos versos deste poema: “Nada feito nada, / no poema / não há termo meio, / meio-amor, meia-palavra.// Do sem / sentido intenso / se faz / um tudo atento./ feito a palavra / em / cantada, // nada / feito / nada”. ]

     Neste segundo livro, FB incorpora o humor, pela via da tradição sterniana: biscoito fino. Nos caminhos da História ele vasculha os jornais de Recife, publicados no Império. Agindo como um antropófago, recorta os anúncios publicitários destes jornais e os versifica tal qual outro pernambucano: Bandeira. Tudo na mais fina estampa do ready made duchampiniano.

     História, humor, metalinguagem e poesia são uma só coisa. Vejamos: No poema “A língua portuguesa”: “Carlos Vannes, / professor de língua inglesa / no Liceu desta cidade, / tem a honra de noticiar / aos seus discípulos / que é chegado do Mato, / e pronto a receber os seus discípulos / que desejam continuar / seus estudos das línguas estrangeiras, / como igualmente receber / todos os demais senhores / que desejam freqüentar os seus estudos / nas línguas / francesa, / inglesa, / holandesa / e espanhola, / como igualmente os senhores estrangeiros / a língua portuguesa”. Um primoroso texto publicitário de época, que o poeta reverte em poético, dialogando com a retórica parnasiana, com a poesia de Bilac, de Fernando Pessoa e, por que não, com a música de Caetano Veloso?

     Em “Nada Feito Nada”, diferentemente de “Rarefato”, há longos poemas. Um deles, o “Certa Biblioteca Pessoal”, poema em duas partes, descreve a biografia intelectual e flagra, em flashes, como se dá processo criativo para o poeta. Em dicção de fundo drummondiano, e reflexão valéryana, o poeta se desnuda e comove, levando o leitor a sentir-se inspirado - ainda que em meio a este “eco seco de nadas”.

     Outro poema longo é sem nem, que ocupa uma parte completa do livro: “Sem Nem”. Sobre este poema, Augusto de Campos escreve na contracapa do livro: “(...) é em especial no poema “sem nem” que Frederico se coloca o dilema crucial do pós-fazer, a justificar a farpa ambígua do título geral: Nada Feito Nada”.

     Na primeira parte deste livro o poeta se auto-resenha com o acróstico de áporo. As cinco letras desta palavra servem como iniciais do primeiro verso das cinco estrofes do poema. O que é áporo? Antes de mais nada, um inseto que vaza um poema de Drummond. Segundo: um problema de solução difícil. Ou seja: o leitor tem diante de si o paideuma do poeta. Abre-te Césamo! É preciso decifrá-lo. Isto é: é preciso ler mais de uma vez, para que da (auto)fecundação nasçam sentidos.

     Em “Contracorrente” poemas longos e curtos se entrelaçam com a mesma intensidade imagética. “Ditadura da popularidade”, com suas quinze estrofes, tem a mesma força impactante de “Menina lendo”, de quatro mínimos versos. FB parece dizer para o leitor: com o poma-fôlego ou a poema-pílula o que importa é o fazer poesia concisa; poesia do rigor; poesia precisa.

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